2009/12/26

DASEIN - "Moço, viver é muito perigoso".

O homem é uma história que está acontecendo
Dasein é a idéia que Heidegger tem de ser humano, baseado nesta condição cuja a identidade é a própria história.
O homem situado num comprometimento com sua identidade como um processo em construção. Então, o homem não tem uma identidade, ele passa a sua vida construindo a pessoa que finalmente acaba sendo, e só acaba sendo no momento que ele morre.
Por isso, Heidegger vai dizer que o Dasein é ser-para-morte, porque ele é aquele ente que só chega a ser ele mesmo no momento que ele não é mais.
O homem está lançado em uma posição extremamente angustiante: quando ele olha para frente, existe a indeterminação do futuro, pois ele não sabe o que vai ser. Ele atua, constrói e orienta o futuro, mas esse futuro está indeterminado.

Quando ele olha para trás, o que ele vê está totalmente determinado, mas o significado daquilo que foi está em suspenso, porque a cada novo passo, a cada novo elemento, a totalidade da história de vida desse homem se transforma.
Essa posição do homem o deixa desamparado, pois esse Ser ainda vai ser - podendo-se traduzir “vindo-a-ser” - porque o Dasein constrói a sua identidade na sua história, e essa história está em processo.
É preciso se por a perigo.
Em uma leitura daseinsanalítica do homem, entendemos que ele está em uma condição extremamente ameaçada.
A expressão de Riobaldo, - Grande Sertões Veredas - é verdadeira, ela é verdadeira numa leitura heideggeriana, onde Riobaldo diz em várias partes do texto: “Moço, viver é muito perigoso”.
Assim como Ulissses de Homero, lanço-me ao mundo.
A dificuldade do alemão de Heidegger é especial. Ele até acreditava que só se se era possivel filosofar em grego e alemão.
Dasein é um verbo que significa existir e naturalmente é também o substantivo "existência".
Mas há um momento em que Heidegger define Dasein e diz: "Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz" - que se se traduz literalmente: "a essência do Dasein consiste em sua existência", ou "a essência do existir consiste em sua existência".
Fontes:
Anna P.R. Mariano - Psicologa
Julian Marias - Filósofo
HEIDEGGER, Martin. Coleção Os Pensadores
Guimarães Rosa - Grande Sertões Veredas
Hernani Mantas - Blog
Ilustração Michel Carlos - (michelcarlos.blogspot.com)

2009/11/23

Saber Envelhecer - Cícero

Há um ano exato iniciei este blog.
Mais um ano e hoje chego aos 47 anos.
Muitos lamentam o passar dos anos, eu bendigo.
Cícero em um dos seus tratados descreve uma réplica de Catão à Cipião onde ele diz: “Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia julgar ruins as necessidades da natureza. E a velhice, seguramente, faz parte delas! Todos os homens desejam alcançá-la, mas, ao ficarem velhos, se lamentam. Eis aí a inconseqüência da estupidez!...”.
Que eu bendiga pelo menos mais 47 vezes.

Uma sociedade é constituída das suas memórias.
Um ser é constituído pelas memórias passadas pelos antepassados agregando as próprias experiências.

Discorro agora sobre a formação da memória, do seu conceito e do "meu envelhecer".

Compartilho uma das experiências mais marcantes que presenciei em 2009 que foi a interpretação do poema “The Lark” de Laurie Anderson, baseado no texto “Pássaros” de Aristóteles, onde ela mitifica o surgimento da memória.

The Lark – Laurie Anderson
Before the world began, there was just sky.
No earth, no land.
Only air and birds everywhere.
Billions and billions of birds.
And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem
because there was no place to put the body
because there was no earth.
And it went on for five or six days and
they were all trying to think of what to do with the body.
And finally the lark had a solution:
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before this no one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles.
Constantly flying in huge circles.


A Cotovia
Antes do começo do mundo, havia apenas o céu.
Nenhuma terra, nenhum território.
Apenas ar e pássaros em todo lugar.
Bilhões e bilhões de pássaros.
E um desses pássaros era uma cotovia e um dia seu pai morreu.
E isto era realmente um grande problema
porque não havia um lugar para colocar o corpo
porque não havia nenhuma terra.
E foi no quinto ou sexto dias e
eles estavam procurando achar o que fazer com o corpo
E finalmente a Cotovia teve a solução:
Ela decidiu enterrar seu pai na parte de trás de sua cabeça.
E este foi o inicio da memória.
Porque antes disto ninguém podia se lembrar de nenhuma coisa.
Eles só estavam constantemente voando em círculos.
Constantemente voando em círculos enormes.
_________________

Mapas da Imaginação e da Memória:
A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam.
O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas.
Os nossos sentimentos.
A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto - eis a invenção.
Ana Hatherly - 'A Cidade das Palavras'
_________________

Don't think about me
If you think
that I want friends
If you think
that I like candies

You are wrong
You are wrong

If you think
that I need money
If you think
that I hate Monday

You are wrong
You are wrong

I just don’t care
I just don’t care

I only want to live in peace
to live sane
to live in grace

I only want to grow old with wisdom
to grow old slowly
to grow old with freedom

To forget that I’m human,
that I’m human.

Don’t think about me.
Don’t think about me.

Não pense sobre mim

Se você pensa
que eu quero amigos
Se você pensa
que eu gosto de doces

Você está errado
Você está errado

Se você pensa
que eu preciso de dinheiro
Se você pensa
eu detesto segundas-feiras

Você está errado
Você está errado

Eu apenas não me importo
Eu apenas não me importo

Eu apenas quero viver em paz
viver racionalmente
viver com elegância

Eu apenas quero envelhecer com sabedoria
envelhecer devagar
envelhecer com liberdade

Esquecer que eu sou humano,
que eu sou humano.

Não pense sobre mim.
Não pense sobre mim.

Edson Moreira
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2009/11/14

Lars Von Trier e o seu Anticristo

Filme totalmente simbólico
O filme discute a natureza humana e a natureza da natureza.
Prólogo:
Começa com uma ária de Hendel (única musica do filme, tendo partes por toda obra) Lascia Ch'io Pianga - Deixa que eu choro (leia o texto a ouvindo).
Referencia direta ao pedido que a mulher faz: Deixa que eu choro, deixa eu curtir a dor, elaborar o luto, que eu queime o que estou sentindo.
O grito do feminino.



Lascia la spinacogli la rosa;
tu vai cercandoil tuo dolor.

Deixa o espinho Colhe a rosa;
tu vais buscando tua dor.

Durante um intenso ato de sexo uma criança desce do berço, caminha pela casa e flagra os pais. Olha para eles e percebe que a mãe o trai com o pai. Descobre que a mãe não lhe tem como o único afeto.
Segue em frente até chegar em uma janela onde se encontram três bonecos representando os três pedintes.
Salta da janela e está morta, então, a antiga relação entre ela e a mãe.
A metáfora trazida pelos três bonecos se apresenta no centro do poema de Yeats – The three Beggars - onde ele fala que as pessoas estão passando fome – “por mais que se tente não há de onde tirar o alimento – tudo o que está ao redor é lixo”.
O poema é a historia do rei que vai ao encontro dos três pedintes e ao longo do poema não se sabe mais quem é, na realidade, o necessitado, se é o rei ou se são os mendigos.
É a velha dialética onde o criado diz ao senhor... “não sei se senhor tem medo de mim ou se eu tenho medo do senhor”.
O homem tem que tirar seu sustento da natureza, para isso a sangra.
A natureza tem que sobreviver, para isso o agride.

A mãe atingida pela pior tragédia na nossa cultura, que é a perda de um filho, elabora o seu luto – Dor advinda da noção de maternidade, uma noção construída pela sociedade à muito pouco tempo.

O marido um psiquiatra, indo contra a ética profissional, passa a assisti-la e a analisar.
Ambos vão para uma cabana em um espaço chamado por eles de Éden- Éden esse com presença das folhas do carvalho não da figueira -, lugar onde ela havia tentado desenvolver, tendo o filho ao seu lado, seu trabalho de tese sobre perseguição às mulheres.
***Ginecidio – assassinato de mulheres***
Ao adentrar no Éden ele a obriga a deitar no mato, a interagir com a natureza.
A natureza da mulher e a natureza da natureza são conectadas.
A natureza é representada por um carvalho.

Durante o filme o carvalho simboliza a luta dos elementos da natureza pela sobrevivência.
O carvalho é uma arvore isolada, expande as suas raízes ao longo de uma grande área para retirar energia de outros carvalhos que por ali tentem se desenvolver.
O carvalho que joga bolotas a todo o momento
O carvalho – no filme - contamina a mão do homem
O carvalho se defende, anula o seu redor para ser dominador do espaço
O carvalho quase que eterniza sua existência,
Representação da maldade da natureza.
A natureza não é mais o Éden original.

“A natureza é a igreja de Satã” – brada a personagem mais tarde. Não devemos subestimar o Éden.
Já a natureza humana é retratada com olhares Hobbesianos.
Enquanto você está bem alimentado, aquecido, descansado, sem dor você é o que chamamos de bom. Basta tirar uma dessas coisas que teremos experiências similares aos chamados “sobreviventes dos Andes”.
Somos pessoas tendentes ao egoísmo.
O poema volta em forma de tríades.

Aparece nova simbologia, agora animais.
Três símbolos dos mais tradicionais que existem:
A corsa – feminino, fecundidade – a corsa grávida perdendo o seu feto, dividida entre a floresta onde ela anda e a sua gravidez.
A raposa – astucia (no cap. 18 do Príncipe a raposa é um modelo).
O corvo – faz a travessia.
É exposto que a pesquisa da mulher, no decorrer do seu convívio com a natureza no Éden, tomou um novo rumo em que teoriza que a matança de milhares de mulheres na história é decorrente de atos de defesa da sociedade defronte a natureza da mulher – que é má.
A mulher é má e o que a Europa fez ao matar milhares de mulheres nada mais foi se defender da maldade feminina.
Assim como a raposa é astuta, a mulher o é no choro:
“Atrás de uma lágrima há uma atriz”.
“O choro da mulher é uma pausa para elaborar uma estratégia melhor”.
**Sociedade é misoginia ou vítima da mulher? **
O homem é perseguido, castrado e preso a uma pedra.
O homem está castrado e impedido de fugir,
Posse absoluta.
O homem se conscientiza que para sobreviver tem que se libertar.
O homem ferido para o sempre se vê na obrigação de eliminar a moléstia.
O homem ferido para o sempre, no Éden, elimina a fêmea.

A mulher antes temerosa à Natureza, ao final conspira com ela.
O homem começa a temer a Natureza quando passa a entender a própria natureza da esposa.

A última cena da obra mostra o homem em comunhão tanto com a natureza tanto com imagens figurativas representando o feminino que passam a cercá-lo no Éden.
A natureza das coisas são soberanas
O mundo não é o caos.
O mundo não é o paraíso.
O mundo apenas é, com o bem e o mal.

IMAGENS DA OBRA: http://www.flickr.com/photos/jadorelecinema4/sets/72157622343511041/show

Uma visão pessoal da obra – uma visão minha, não o que o diretor quis dizer:
Alem dessa visáo da natureza que nos cerca (a humana e a da natureza), talvez minhas questões levaram-me a enxergar algo mais onde aponta essa nova configuração do feminino.

Dois fatos, um onde ela narra ao marido, que se mostra ignorante à rotina do filho, os novos hábitos noturnos da criança e outro de ela ter levado a criança para o Éden durante o período de desenvolvimento da tese, enquanto, possivelmente ele continuou a sua rotina sem ter que se preocupar com o filho apontam para o homem milenar com a paternidade definida em prover e proteger.

Ela, mulher moderna, interrompe a maternidade para gozar, para usufruir do seu direito de ser feliz.
Abandona o filho para retornar à condição de una.
Sacrifica a maternidade em troca do gozo.

2009/10/30

Moral: Normas ditadas pela conveniência.

"Quer ajamos livremente, quer em virtude de uma necessidade, é sempre a esperança e o medo que nos conduzem." - Spinoza
Sponville também analisa essa questão e conclui que a moral não existe, o que existe é a prudência, a hipocrisia.

Quão assustadoras me são essas cenas... a massa uníssona, hipnotizada em seu ato inquisitório não em Salem mas em uma universidade.
Assustado fico não pela violência, assustado e triste fico com a constatação do que hoje o jovem é.
Jovens recalcadas e feias (a beleza está na auto-estima) se juntam a rapazes imaturos - que tem como únicos modelos de mulher a mãe ou a puta - e perseguem uma moça que cometeu o delito de se vestir a sua maneira, inadequada para o meu senso estético , mas adequada ao gosto dela.
Recalcadas e feias, repito.
Losers.
Assustado e triste procuro encontrar algo que mova essa geração.
São esses mesmos estudantes que ficaram de braços cruzados e bunda colada em frente aos seus PCs enquanto são prejudicados com o cancelamento do Enen.
Não estou falando deles se mobilizarem para um Brasil melhor, estou falando que eles não têm atitude nem quando o interesse é deles.
Spinoza e Sponville explicam... a moral é ditada por normas para manter o que já nos é.
O que sobra é o medo e a hipocrisia.

Esses jovens nasceram velhos... sem a benesse do envelhecer.

2009/09/26

"Sucesso é poder falar não"

Um sábio pode estar oculto atrás de uma imagem lasciva.
Waldemar Seyssel, ou melhor, palhaço Arrelia - como entrou em nossas vidas – deu, certa vez, como definição de sucesso a seguinte citação: “Sucesso é poder falar não”.
A frase é sim muito profunda e remete ao processo e etapas da nossa existência.
Ninguém nasce detentor do sucesso, ele é decorrente das escolhas e ações.
A existência transcorre numa seqüência de adequações entre você e mundo até o dia em que, se tiver coragem e aspiração para tal, altera essa equação, priorizando você ao mundo.
Sucesso é quando você alcança uma etapa na vida, decorrente da coragem e do auto compromisso, em que tem pleno poder de dizer “não”.
É poder dizer não às pessoas que lhe são caras.
É poder dizer não a uma ocupação em que não se queira mais estar.
É poder dizer não aos gabaritos vigentes.
Ter sucesso é ser pleno senhor das suas decisões, é, enfim, dizer não, mesmo que custe muito do conforto já instalado – do status quo adquirido.
Sucesso é poder falar não.

Julio Seyssel e Waldemar Seyssel
Para aqueles que não conseguem enxergar o valor de uma pessoa alem da imagem que ele apresenta, talvez dêem credibilidade ao Sr. Waldemar Seyssel ao saberem que seu avo paterno Julio Seyssel era um ilustre professor na Universidade Sorbonne e abdicou da vida acadêmica na França para viajar pelo mundo em um circo. Já Arrelia, digo Waldemar, renunciou a advocacia, em numa época em que ser advogado era um ofício para poucos, para ser, possuidor do seu destino, um palhaço.
Um homem de sucesso.

2009/09/24

Há de se “substituir o templo pela escola, o frade pelo professor, o devoto pelo industrial”.

"Mas os povos católicos?... Que é Portugal e quem somos nós, portugueses? Escravos duma nacionalidade exausta, com um povo devorado até aos ossos, cheio de fome, sem liberdade, fanatizado, escravizado, inconsciente, miserável... É católica a Espanha. Mas que é a Espanha? Uma nação depauperada, como nós exausta e decadente, também enferma e aviltada. O jesuitismo minou-a desde os alicerces... É católica a Itália. Mas essa só agora começa a libertar-se, fazendo substituir o templo pela escola, o frade pelo professor, o devoto pelo industrial... Isto sem sairmos da Europa, porque o mesmo acontece nas duas Américas. Pois que são o Paraguai, o Brasil, o Chile, o Equador, o México, a Bolívia, católicos, comparados com os povos do norte, protestantes? "
Tomás da Fonseca - Sermões da Montanha (1909 - excerto)
Nasceu em Laceiras (Mortágua) - 10 de Março de 1877 e morreu em Lisboa- 12 de Fevereiro de 1968. Foi perseguido, preso, dezassete dos seus livros foram proibidos pela censura fascista.

2009/09/22

Jones, Napoleão e o "Dia mundial sem carro".

Hoje, indo de carro para o trabalho, fiquei sabendo, negociando espaço com outras centenas de veículos, que é o “Dia mundial sem carro”.
Levando em conta que o “Ócio é a oficina do pensador” – essa não tinha ouvido antes! - aproveitei (no caminho) para meditar sobre o assunto.
Um dos poucos elementos da evolução humana a respeito do qual quase todo mundo está de acordo é que andar com duas pernas foi o evento definidor da nossa linhagem, responsável por iniciar o longo caminho até o Homo sapiens moderno.
Caminhou ereto, então, a passos largos à se tornar Homo economicus.
Não há nenhum outro produto comercial na história que tenha tido um efeito tão grande na economia e na política como o automóvel.
Maior gerador de empregos e consumo do mundo, sem antes mudarmos a configuração econômica mundial, mexer na produção de autos é dar um tiro no próprio pé.
É sabido que a transferência de tecnologia nos nossos carros de gasolina para metanol é um benefício para a saúde do planeta, mas o que quase ninguém sabe é que para a saúde do ser humano os resíduos da gasolina são menos prejudiciais.
É de interesse econômico nacional que se maximize o benefício ecológico do metanol em detrimento da saúde pública.
Até uns meses o mundo abraçava esse nobre interesse em desenvolver o metanol – Save the World. Bastou o preço do barril do petróleo desabar que os olhos para essa tecnologia foram quase que fechados.
Numa das grandes obras que apontam as utopias negativas e fazem criticas à modernidade , “A Revolução dos Bichos”, George Orwell cria personagens antagônicos – o fazendeiro Jones e seu adversário o porco supremo Napoleão, instrumentos do sistema, que fazem
, por meio do trabalho , o mundo à eles solicitado .
Ao final da história, o quadrúpede, ao chegar ao poder, se torna bípede, renegando seus antigos discursos.
Ao contrário da história de Orwell, mas tendo-a mais do que nunca como exemplo da contemporaneidade, estamos deixando de ser bípedes, de fazer cálculos mentais, de nos comunicar sem tecnologia, de nos tocar.
Somos criaturas de quatro rodas.
Resgatemos nossa condição de bípedes.

** Para isso não precisamos deixar o carro em casa (principalmente com esse transporte público)

2009/09/05

SOPHIE, se CALE

Esta fórmula informal, mas extremamente didática, foi me passada pelo psicanalista Luiz Alberto Hanns durante o curso “NOVAS CONFIGURAÇÕES DO FEMININO E MASCULINO” e retrata bem a carência afetiva do Ser Contemporâneo.

Fui à exposição “Cuide de você” de Sophie Calle (sophiecalle.com.br) e confesso que o que vi não me tocou.
Essa coisa do vitimismo é um entrave.... e falo sem citar gêneros.
A partir do momento que a nova sociedade optou por viver sem papéis definidos homens e mulheres empurram responsabilidades e sentimentos para baixo do tapete do outro.
O homem perdeu, com a auto-suficiência da mulher, os 3 Ps que caracterizavam a sua existência na relação (Prover, Proteger e Procriar) e astutamente usa isso para abdicar de pesos e obrigações – (hoje não raro é encontrar um homem se vitimizando pelo peso de ter que sustentar uma família).
Porem sem essas funções o homem lida com a própria perda da identidade.
A mulher “pós-moderna” é senhora do seu desejo, dona do seu corpo. Também é aquela que passou a pegar o acompanhante na casa dele, escolher o restaurante, fazer a sugestão do prato e dividir a conta – exigiu para si esses ônus. Porem ainda habita em seu interior a “Julieta medieval” que ao menor gesto insensível se vitimiza.
Frágeis são as relações – o problema não está na forma do acabar (e.mail, pombo correio, celular ou pessoalmente), o cuidado deveria estar no percurso entre o gênese e o apocalipse dela.
Depois cada um cuida de si..

O que vi não me tocou -
Sai de lá com a necessidade de ouvir Carla Bruni.


2009/08/24

SUMIMASEN - Questões do agora (final)

Não temos respostas para as questões do agora.
Não temos respostas para as atitudes do agora.
Surpresos com o questionamento ainda respondemos “porque sim”, mas não é por ingenuidade, desta vez é por descaso... é por não nos importarmos – estamos com a vida ligada no piloto automático e a existência se consome de maneira estúpida.

A vida é individual – particular, é o Eu em relação ao mundo e o mundo é um para cada um.

Porem existe o outro e o outro não deve ser o inferno – como sentenciou Sartre. O outro é inevitavelmente o elo entre você e a vida. Você não existe sem o outro.

O encontro entre o Eu e o Outro é seguido de transformações – o Eu e o Outro nunca mais serão os mesmos. Abandonemos a ação contemporânea do “ou você é prego ou é martelo" e adotemos a filosofia do equilíbrio e do cuidado.

Não temos respostas às questões da pós modernidade, mas temos que nos redimir para com aqueles que causamos danos.

SUMIMASEN é a palavra que representa uma maneira sincera de se pedir desculpas, do fundo do coração, com a intenção, o cuidado, de não mais se repetir o dano.

Sinto pela ausência de respostas..... Sumimasen por todo o resto.

É quando se tem a visão turva
e não se visualiza a importância da flor
É quando se tem a consciência abalada
pelo virtual estrago do espinho e sua dor.
E.M.

BECAUSE - Questões do agora I

Nos anos 60 a resposta às questões que afligiam a sociedade foi pueril e de maneira poética dada pelos Beatles através da música "Because".
Resposta simples como um "é por que é".
Já descrita como sociedade pós-moderna, temos a definição do nosso tempo no brado niilista de Nietzsche descrito nos livros filosóficos: “a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao 'por que'. Os valores tradicionais se depreciam e os critérios absolutos dissolvem-se...A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e torna-se difícil prosseguir."
Não haviam respostas plauziveis para o “Why”.
Nietzsche anteviu, Kafka (se) expos seu tempo e Dostoiévski complementou Zaratustra: "Se Deus está morto, então tudo é permitido" -
Entende-se por Deus neste ponto como a verdade e o princípio.
Há ausência de respostas ao "por que", há ausência de um significado para a existência.

2009/07/25

Nosso amor não é líquido, meu amigo.

“Nosso amor não é líquido, meu amigo.
Compreendemos Bauman e seu desconforto com a transitoriedade dos sentimentos e relações.
Pessoas são descartáveis porque já foram seduzidas e o desafio já se findou. O desejo morreu e com ele a conquista não é mais instigante.
A fidelidade se nutre de outro alimento, o do cuidado, da permanência, da reinvenção.
Amigos ou amantes têm de reinventar os sentimentos para que não se percam nas esquinas da mesmice.” Gabriel Chalita

Este texto me foi enviado e mostra a reação de um pensador como o Chalita à obra “Amor liquido” de Bauman.

Ao decidir retomar o assunto veio-me em mente fazê-lo principalmente na forma de resposta à pessoas que, na época do meu texto, debateram e se mostraram incomodadas com as idéias do Bauman.

Pois bem, resumamos Bauman e vamos ao ponto central:
“Estamos na era do homo consumens.
O que caracteriza o consumismo não é acumular bens (quem o faz deve também estar preparado para suportar malas pesadas e casas atulhadas), mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de abrir espaço para outros bens e usos.”

Olhe ao seu redor e discorde.... quantos estão dispostos a cuidar, a se importar e reinventar o outro e se reinventar em uma relação?
Quantos casais, amigos, parentes e sócios estão desistindo sem nem tentar?

Bauman expõe a sociedade moderna, não promove defesa à ela.

Espinosa escreveu que cada indivíduo tem algo de constante – sua essência – e algo de mutável – suas partes – que tendem a se transformar através do tempo, pelo contato com o meio ao seu redor. Essa essência, que se esforça para se manter, a partir da qual o indivíduo pode existir (no espaço-tempo), Espinosa chama de Conatus. Além desse esforço de autopreservação, o Conatus é também um esforço de auto-realização e auto-afirmação (potência de agir)... O livre-arbítrio seria, então, idéia ilusória, já que estaríamos sempre nos comportando baseados na nossa necessidade intrínseca (essência). A liberdade, para o autor, é a de escolher algo seguindo nosso conatus

A escolha é nossa, cabe a cada um (casais, amigos, parentes, sócios) escolher o que lhe é sacro e ter a coragem de sustentar essa decisão e “reinventar os sentimentos para que não se percam nas esquinas da mesmice.” (vide: “De que amanhã se trata?)
http://edsonmoreira6.blogspot.com/2008/11/de-que-amanh-se-trata-victor-hugo.html

PS: Apenas tento pensar o mundo amparado em pensadores.

“Não há nada que eu possa dizer aqui que vocês já não saibam”- Evandro Vieira Ouriques.


AMOR MODERNO - David Bowie

Eu apanho um entregador de jornal
mas as coisas não mudam muito
eu estou parado no vento
mas eu nunca aceno adeus
mas eu tento , eu tento

Não há nenhum sinal de vida
É apenas o poder para encantar
Eu estou na chuva
mas eu nunca aceno adeus
mas eu tento, eu tento

nunca vou me apaixonar por
amor moderno caminha ao meu lado
amor moderno passa
amor moderno me leva à igreja na hora certa

a igreja na hora certa me assusta
a igreja na hora certa me deixa feliz
a igreja na hora certa coloca minha confiança em Deus e no
homem
Deus e o homem, não há confissões
Deus e o homem, não há religião
Deus e o homem não acreditam no amor moderno

2009/07/18

TRÊS PERSONAGENS SEMELHANTES (O principe, Odorico Paraguaçu e José Sarney) E SEUS CRIADORES (Maquiavel, Dias Gomes e o Eleitor).

"Brasileiros e brasileiras”: “botando de lado os entretantos e partindo pros finalmentes”.

Maquiavel ditou os preceitos fundamentais para a conquista do poder e, sobretudo, a sua manutenção. Ensinou ele: "todo príncipe (ou seja: todo político) deve saber comportar-se como homem e como animal (...) é necessário ter-se por professor um ser meio homem e meio animal (...); um príncipe (o político) deve saber usar dessas duas naturezas, nenhuma das quais subsiste sem a outra. É preciso ser um pouco leão e um pouco raposa. Quem mais sabe imitar a raposa, mais proveito tira. "Mas é preciso saber mascarar bem esta índole astuciosa, e ser grande dissimulador".

Dias Gomes em sua peça teatral “Odorico, o bem-amado, e os mistérios do amor e da morte.” (1962), de forma ficcional, dá forma e entrona esse político

O Eleitor, com seu direito sagrado de voto, traz esse personagem para a realidade ao eleger como protagonista da sua historia uma figura retrograda como o senador Sarney e assim validar e perpetuar um estado.

A peça de Dias Gomes é, para mim, digna de ser classificada como “documento histórico do comportamento político brasileiro” e ponho essa obra, em minha estante, ao lado de obras de Darcy Ribeiro, Euclides da Cunha e João Guimarães Rosa para ler e entender o Brasil.

Notaram, outro dia, o fato de que os artigos do nobre senador Sarney, em sua coluna semanal na Folha , altamente republicanos - em que os ladrões são sempre os outros – terem sempre ao lado da coluna uma enxurrada de denúncias, acusações, e censuras contra as falcatruas e trambicagens a ele atribuídas.

Mas, cego à realidade e ofuscado pelo Sarney liberal, universalista, internacionalista, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, ao príncipe não interessa o que o povo pensa.

Acredito que neste caso (neste caso) a culpa não é da falta de moral e sim apenas um caso de embate entre o intelectual e o político.
Ao homem intelectual cabe teorizar um mundo ideal e ao homem político cabe manter o seu mundo real.


Maquiavel e Dias Gomes eternizaram seus personagens ... mas ao Eleitor seria muito melhor elaborar um novo protagonista.




"RESPIREMOS COM MODERAÇÃO" - Para não dizer que não falei da gripe.

"Assim, sejamos limpinhos e obedientes, mas não esqueçamos que o paranóico é ridículo no seu gozo em causar medo. Respiremos com moderação." LUIZ FELIPE PONDÉ

17/07: a imprensa já noticia 11 mortes entre nós.... pouco comparativamente a outros países, mas é preocupante. Há lugares que não existe escolha entre "manter a saúde ou o emprego", vide as mulheres grávidas na Argentina que estão afastadas dos seus empregos... mas, por enquanto, aqui podemos ainda correr o risco e irmos trabalhar.

O virus já mutou, já temos a nossa própria versão. Talvez por orgulho de não precisar dos argentinos!! Somos auto suficientes, não carece importar nada deles!!

No começo do século a Influenza matou aproximadamente 25% da população (foram mais de 50 milhões de pessoas).
O crescimento da população se dá de forma geométrica e esses milhões hoje seria bilhão a mais (chute). O planeta não suportaria.

Como pensador que sou, compreendo que para a nossa geração a Influenza foi uma benção....
Quem sabe se o vírus H1N1 não será uma benção para as gerações futuras?

O universo de quando em quando faz umas seleções naturais.

*** Texto e assunto extraidos de cometário meu feito no Blog da Tânia.




2009/07/13

A “Tentativa de Evocar o Espírito de Joseph Beuys ao Redor Deste Espaço” e Carta à Henri-Marie Beyle.

Sexta, 10/07 na galeria vermelho o paulistano Guilherme Peters andou de skate sobre um círculo de banha animal, tendo ainda no ato a presença do feltro e o uso de um chapéu e coturno. Esta performance foi uma referencia ao artista alemão Joseph Beuys, famoso por suas performances com o mesmo material e visual.
Costuma-se dizer que a predominância de feltro e graxa na obra de Beuys é devida a um incidente ocorrido na guerra. Beuys foi alvejado e seu avião caiu durante uma missão na Criméia e ele acabou sendo resgatado por tártaros. Ele teria sido salvo ao ter sido recoberto por feltro e gordura. Não se sabe se essa história é verdadeira, mas agora ela já faz parte do mito que cerca a figura de Beuys.

videoVideo: Malu Aguiar
A galeria tem anexado ao seu pátio um restaurante, o ‘Sal’, e eu fui jantar enquanto não começava. O restaurante tem a entrada envidraçada de frente ao local da performance.
Melhor do que assistir aos tombos do ‘artista’ foi ver a reação do público.
Dois públicos: Os que foram para ver o evento da galeria e os que foram para jantar.
Do lado de fora o público, do tipo que chega e sai com cara de entendidos, se acotovelava ao redor do círculo de banha e, aposto, cada uma das pessoas desse público ficou formulando interpretações risíveis e intelectualizadas sobre o ato.
Do lado de dentro os leigos se divertindo com o (para eles) espetáculo circense.
Minha leitura foi a de que o artista procurou – assim como Beuys em muitas das suas ações - o confronto com o limíte.

Após o evento Malu citou o comentário de uma artista européia (não guardei, nunca guardo, o nome) de que a arte contemporânea brasileira é composta por “piadas visuais”.
Dei a citação como sendo a perfeita síntese da noite.
Assim como, na política, a democracia faz eleger um número pequeno de políticos verdadeiros – pois a maioria deles é eleita por um povo incapacitado –, a arte contemporânea produz, com o seu democratismo, um número pequeno de artistas verdadeiros.
Evocaram o grande artista... mas nada de novo adveio desse chamamento e “na arte, toda repetição é nula”.
Carta à Henri-Marie Beyle:
Caro Sr., até então não havia entendido a sua síndrome, a tal “Stendhal”, sempre achei extremamente exagerada a vossa narrativa do “desassossego” ao deparar com a arte do seu tempo - o efeito do belo sobre o observador – mas compreendi que o vosso problema advinha de um tipo de arte que era voltada para a divindade (a arte de Florença), para o “belo enquanto participante do espírito... o belo produzido pelo espírito” (Hegel).
O homem comum se apavorando com o belo que é capaz de contemplar, mas incapaz de ser-lo.
Hoje a arte é voltada para o Homem - o prazer estético não é mais uma atitude espiritual - e citando Ortega y Gasset – “o característico da nova arte ...é que ela divide o público nestas duas classes de homens: os que a entendem e os que não a entendem...não é para todo mundo.. é dirigida a uma minoria especialmente dotada... O homem comum se sente terrificado, humilhado perante uma arte que não compreende.”
Terrificado deveria ficar também o artista ao ver que a sua obra é apenas para os seus pares.

Talvez cada geração mereça a arte que lhe é produzida.

2009/06/23

Amor perfeito - texto Martha Medeiros

Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira, já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim.
É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.
O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos.
Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar.
O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um emprego seguro. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar.
Não é querer demais, é?
Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da “Playboy”. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.

Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria.
Será que se enganou de endereço?
Não. Está tudo certinho, confira o protocolo.
Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.
E agora você está aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado.
E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou.
Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais não imaginava ter tanto fôlego.
Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia encomendado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia quem nem lhe pertence.
Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu.
Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso.
Olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!
Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado. Repare em como a vida é astuciosa.
Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado.
Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!
Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.









2009/06/21

“ O mundo precisa de menos gente. O que fazer com tanta gente que precisa deste mundo?”

Junho 1999, população mundial atinge a marca de 6 bilhões de habitantes .
Sábado, 25 de
Fevereiro de 2006, as 21:16 hs (horário de Brasília),
a população da Terra atinge a marca de
6.500.000.000 de pessoas.
Estimativa: Quinta, 18 de Outubro de 2012 as 18:16 hs a população da Terra será de 7 bilhões de habitantes.
Os recursos alimentícios que podem ser obtidos no planeta, os mais otimistas acreditam serem capazes de prover sustento somente para uns 4 bilhões de habitantes.
Que triste fim espera os atuais 2,5 bilhões de seres excedentes?


Pelo mundo afora:
- Pessoas que nascem por segundo: 4,4
- Pessoas que nascem a cada minuto: 261
- População no ano 1000: 310 milhões
- População no ano 1900: 1.6 bilhões
- População no ano 2050: 9.0 bilhões
- Número de pessoas que nasceram até hoje: 106 bilhões
* Conforme estimado em 2002

A virada do primeiro milênio (1000 d.C.) foi cunhada como “Tempos do medo”.
Cinco medos em particular: o medo da pobreza, o medo do outro, o medo de epidemias, o medo da violência e o medo do Além.

O medo é um velho inquilino do coração humano.

2009 d.C. e vemos ainda acomodado em nosso interior esse inquilino.
Medo ao ver que, como seqüela da desaceleração econômica mundial, a estimativa é de 100 milhões de pessoas a mais na situação de pobreza este ano.
Medo ainda do outro.“O inferno é o outro” pronunciou Sartre.
Medo das epidemias globalizadas.
Medo da violência, agora urbana.
Medo do não haver Além, pois se antes o medo era pelo que nos esperava pós vida.. hoje o medo vem do fato da não existência da fé.

A mim falta fé num Deus; acreditar que existe algum Ser superior que possa intervir.
Em mim há a idéia de que dependemos de nós, e só de nós, para haver alguma mudança.

É imperativo haver fé no ser humano.
Daqui a mil anos vamos ter os mesmos problemas – parece ser inerente à nossa existência .
Daqui a mil anos vamos conviver com esses problemas, mas há de ser de uma forma mais humana.

Copérnico nos mostrou que não somos o centro do universo, somos parte não vital, somos dispensáveis. Precisamos do planeta e não o contrário.
“ O mundo precisa de menos gente. O que fazer com tanta gente que precisa deste mundo?” - Walcyr Carrasco

Porem há de sermos o “Sal da Terra”.
Que se extinga o desamor.... que não se fira mais o semelhante.

Vamos enxergar o que somos hoje para sermos melhores no futuro:
Em 1974, durante a Conferência Mundial sobre Alimentação, as Nações Unidas estabeleceram que “todo homem, mulher, criança, tem o direito inalienável de ser livre da fome e da desnutrição...”
- Há 800 milhões de pessoas desnutridas no mundo.
- 11 mil crianças morrem de fome a cada dia.
- Um terço das crianças dos países em desenvolvimento apresentam atraso no crescimento físico e intelectual.
- 1,3 bilhão de pessoas no mundo não dispõe de água potável.
- 40% das mulheres dos países em desenvolvimento são anêmicas e encontram-se abaixo do peso.
- Uma pessoa a cada sete padece fome no mundo.

************************************************************
"A esperança é um sonho que caminha" - Aristóteles

Beto Guedes/Lou Borges

2009/06/11

UMA VIDA QUE VALE A PENA SER VIVIDA

O que é uma vida bem sucedida??
Disponibilizo pensamentos chamados contemporâneos, mas que tem muito da sua base na Grécia antiga, onde propõe como resposta a simples, mas ardua, busca de uma verdade própria e com esse insumo a auto construção.
"Pense sa vie et vivre sa pensée", escreveu Sponville.
Abaixo idéias de alguns livros e cursos.

A existência nada mais que é que o resultado da interação do corpo com o mundo – o encontro entre você e a vida.
É o se deparar com o mundo.
Não cabe inventar a boa existência, mas sim identifica-la.

O gabarito da vida não está na concepção das idéias, mas sim de quem a vive.
Só quem a vive pode gabaritá-la, só pode ser valorada se ela é vivida, seu valor depende dela mesmo.

A vida é seqüência, cacos, pontes entre as ações.
O valor está no instante imediato.
A vida que vale a pena ser vivida não está fora dela, está contida nela mesma, só tem sentido se for vivida, deixando de se deter.
É preciso que a vida valha.
A vida é..... simplesmente é.
Sejam lá quais foram os encontros com o mundo, o valor da vida não está determinado.
É a existência que tende ao infinito. (É o casamento entre a eternidade e o devir.)
O Eu não permanece.
O Eu é um fluxo.
A vida é um deixar de ser.
Corpos em transformação - daqui a pouco eu sou outro.
O que sobra é o Eu no mundo.

“Tudo está em mudança e nada permanece parado”
- Platão
“Não se pode penetrar duas vezes no mesmo rio”
- Heráclito

A arte (existência) é uma centelha que se perpetua, mas não se repete.
A arte permite ao agente toda a sua potência. Quando há a audácia.
O real nos agride quando vamos contra o telos, contra nossa natureza, quando não realizamos manifestações próprias.
Quando deixamos que nos dêem respostas, quando deixamos sociabilizarem nossas células, que haja o processo civilizatório, que haja adequação da nossa potência ao mundo.
A civilização nos dociliza.
O curso do mundo nos escapa.

Nada pior que o fracasso, a não ser o êxito quando ele não nos satisfaz.

Temos a vida por objeto, a vontade por método e a felicidade por fim (telos). Antecipamos os confrontos para tentar construir um encontro positivo.
O encontro nosso com o mundo depende da nossa disposição, quando nossas capacidades se direcionam para o instante vivido.
É trabalhar com variáveis não controláveis.

A morte rompe a jornada do herói. Ela é comum a todos.
A vida não, ela é individual – particular, é o Eu em relação ao mundo.
O mundo é um para cada um, o momento é agora.

"A vida é o que acontece enquanto estamos fazendo outros planos".

Pense a vida e viva o pensamento.

2009/05/31

IT´S SO HARD

Eu não tenho respostas nem para as minhas questôes.... por favor não me peçam para as suas.
Como já citei, Luck Ferry propôe que a família preenche na atualidade o requisito de único bem sagrado (sacro: o que define por “algo que vale a pena morrer”).
Mas vou me apoiar em seu livro anterior à essa afirmação -“O que é uma vida bem sucedida?” Editota Difel * 2004 - no qual indaga: “qual a vida que vale a pena ser vivida?”.
Se o sacro é “algo pelo que se vale a pena morrer”, pelo que, então, se vale a pena viver?

Percebi:
Se morre pelo que é sacro...

Se vive por e para si... buscando uma vida que vale a pena ser vivida.


Você tem que viver
Você tem que amar
Você precisa ser alguém
Você tem que empurrar

Mas é tão difícil,
é realmente difícil
Às vezes eu sinto vontade de desistir

Você tem que comer
Você tem que beber
Você tem que sentir algo
Você tem que se preocupar

Mas é tão difícil,
é realmente difícil
Às vezes eu sinto vontade de desistir

Você tem que correr

Você tem que se esconder
Você tem que manter sua mulher satisfeita

Mas é tão difícil,
é realmente difícil
Às vezes eu sinto vontade de desistir
– It´s so hard - John Lennon


2009/05/24

COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN

As primeiras amizades ao longo do tempo tendem a virar espécie de imaginário.
As primeiras amizades ao longo do tempo tendem a se dissipar na memória.
Aos meus caros antigos - e agora um pouco velhos – amigos, confesso que toda nossa história para mim virou um pouco imaginária... muito do real vivido foi consumido pelo estar alerta no presente.
Porem isso não me preocupa nem me entristece e, analisando, nem falta me faz..... minha cabeça não é museu.
John, Nel, Rica e Má, não os vejo como elementos do passado, símbolos de algum tempo que se foi.... referencias.
Kant tem uma frase assim: “Meus caros amigos, não há amigos”.
Eu concordo com ele ao dizer que “estamos” amigos o que difere do “sermos”, mas discordo da negação do haver.
Amigos, digo que posso não “estar” amigo, mas tenham certeza que eternamente “sou” amigo.
Quando penso em vocês não olho para o passado ... olho para o presente e para o futuro.


Feliz aniversário Fiori.

"John, o tempo andou mexendo com a gente sim!
John, eu não esqueço,
oh, Não, oh, Não!
A felicidade é uma arma quente, quente...
Quente!"
-Belchior-

2009/05/17

"Todo gozo é enfraquecido quando compartilhado" - Pequenos inquisitores a serviço da "criação do Eu"-


Luiz Felipe Pondé ponderou e eu o uso agregando algo às suas idéias para aquietar umas das minhas inquietações.

Sade é mais do que psicologia e política.
Não divirjo daqueles que dizem ser ele um gênio que gritou pela liberdade em meio ao século da luzes, nem daqueles que o adjetivam de tarado sexual com dotes literários medíocres.
Há um Sade “metafísico” e segundo a sua metafísica a natureza é perversa e cruel e, portanto, não há crime ou transgressão.
Nesse sentido ele se aproxima muito dos cristãos antigos (gnósticos) que afirmavam que o mundo foi criado por um deus mau – (já usei Bakunin para avalizar essa idéia).
Quem busca a “virtude”, como sua personagem Justine – bem escolhido o nome!! – é objeto “feito” para ser torturado por uma sociedade que dá corpo à crueldade.
Desde sempre somos um bando de masoquistas submissos a uma sociedade atroz e nos submetemos aos seus gabaritos por comodidade (é mais cômodo seguir o rebanho). Há o esforço para alcançar o “modelo da hora” e para isso fazemos cirurgias estéticas, políticas, morais, raciais e culturais – uma lipoaspiração em sua natureza.
A eugenia não foi inventada, ela se desenvolveu naturalmente - o mais forte (capaz) suplanta o mais fraco, porem hoje o mais poderoso suplanta o mais forte.
Estamos fabricando a espécie. Estamos “Desadarwinizando” (sic) a evolução.
Café e Cigarros.
Minha inquietação é a de que me pego defendendo a lei antitabagista que determina aonde as pessoas podem ou não fumar.
Minha natureza não é essa, mas me vejo apoiando a segregação.
Caiu a ficha ao assistir ao programa “What not to wear” (Como não se vestir) onde Stacy London e Clinton Kelly determinam o novo look da vítima (visual dentro do gabarito estético).
Minha natureza não é essa, mas me pego
, de formas inconscientes e na maioria das vezes explicitas, a demonstrar minha preferência pelo visual feminino de cabelos compridos, saltos altos e roupas sensuais.
Assumo ai a exercer o papel de impositor e passo a cuidar do “interesse do coletivo”...passo ai a exercer o papel de impositor e esqueço o direito do outro.
“Vigiar e Punir” – Foucault decifrou.
Minha natureza não é essa.
Seguindo Foucault, na fabula de Carlo Lorenzini, Pinóquio é uma criança que em sua natureza é de madeira. Não aceitando a natureza da cria, a luta (desejo) de Gepeto (criador – sociedade) é a de transformá-lo em humano.
Quero manter minha natureza de madeira.

Dentro dos delírios de uma nova “pureza” existem pessoas que “salvam” o mundo comendo alface! Um exército de rúculas é o que necessitamos.
Prefiro a política Sadiana à política sadia.

Transcrevo Pondé usando minha pena (teclado no momento) e minha aprovação: “O que humaniza são os vícios, não as virtudes. Temo as pessoas que não têm vícios. O novo hipócrita é magérrimo, verde e antitabagista”.

Cenas do filme "Café e cigarros"

Tow Waits e Iggy Pop


























































2009/04/25

Viés da vez©: O pior está passando II - Você decide o que pensar.

O universo não produz pensamentos ruins.
O universo não produz pensamentos bons.
Você decide o que pensar...
Há um estudo desenvolvido pelo pesquisador Masaru Emoto que estuda a estrutura molecular da água e naquilo que a afeta.
Ele elaborou uma série de estudos aplicando estímulos mentais e fotografando-os com um microscópio de campo escuro.
Há foto de um pouco de água da Represa Fujiwara antes de receber uma benção de um monge zen-budista e outra após. A estrutura modificou-se.
Na sequencia há fotos em que o Sr. Emoto imprimiu palavras e amarrou-as em garrafas de água destilada e as deixou por uma noite.
Frases como “Chi do amor”, “obrigado” e até “você me enoja, vou matar você” alteraram a estrutura molecular da água.
Sr. Emoto fala do pensamento ou intenção sendo a força motriz. A ciência de como aquilo afeta as moléculas é desconhecida, mas factual.
Somos seres constituídos por mais de 60% de água em nosso corpo.
Se pensamentos fazem isso com a água, imagine o que nossos pensamentos fazem conosco.

http://www.youtube.com/watch?v=lkbpXRSIUnE&feature=related
Normalmente temos um verniz de pensamento positivo cobrindo uma imensa massa de pensamentos negativos.
O universo não produz pensamentos ruins.

O universo não produz pensamentos bons.
O universo não produz pensamentos ruins.
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Fonte de pesquisa: "Quem somos nós" - William Arntz, Betsy Chasse, Mark Vicente
Vídeo: "Positive & Negative Energy Effects on Water Crystals"