O homem é uma história que está acontecendo Dasein é a idéia que Heidegger tem de ser humano, baseado nesta condição cuja a identidade é a própria história. O homem situado num comprometimento com sua identidade como um processo em construção. Então, o homem não tem uma identidade, ele passa a sua vida construindo a pessoa que finalmente acaba sendo, e só acaba sendo no momento que ele morre. Por isso, Heidegger vai dizer que o Dasein é ser-para-morte, porque ele é aquele ente que só chega a ser ele mesmo no momento que ele não é mais. O homem está lançado em uma posição extremamente angustiante: quando ele olha para frente, existe a indeterminação do futuro, pois ele não sabe o que vai ser. Ele atua, constrói e orienta o futuro, mas esse futuro está indeterminado. Quando ele olha para trás, o que ele vê está totalmente determinado, mas o significado daquilo que foi está em suspenso, porque a cada novo passo, a cada novo elemento, a totalidade da história de vida desse homem se transforma. Essa posição do homem o deixa desamparado, pois esse Ser ainda vai ser - podendo-se traduzir “vindo-a-ser” - porque o Dasein constrói a sua identidade na sua história, e essa história está em processo.
É preciso se por a perigo. Em uma leitura daseinsanalítica do homem, entendemos que ele está em uma condição extremamente ameaçada.
A expressão de Riobaldo, - Grande Sertões Veredas - é verdadeira, ela é verdadeira numa leitura heideggeriana, onde Riobaldo diz em várias partes do texto: “Moço, viver é muito perigoso”. Assim como Ulissses de Homero, lanço-me ao mundo.
A dificuldade do alemão de Heidegger é especial. Ele até acreditava que só se se era possivel filosofar em grego e alemão.
Dasein é um verbo que significa existir e naturalmente é também o substantivo "existência". Mas há um momento em que Heidegger define Dasein e diz: "Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz" - que se se traduz literalmente: "a essência do Dasein consiste em sua existência", ou "a essência do existir consiste em sua existência".
Fontes:
Anna P.R. Mariano - Psicologa
Julian Marias - Filósofo
HEIDEGGER, Martin. Coleção Os Pensadores
Guimarães Rosa - Grande Sertões Veredas
Hernani Mantas - Blog
Ilustração Michel Carlos - (michelcarlos.blogspot.com)
Há um ano exato iniciei este blog. Mais um ano e hoje chego aos 47 anos. Muitos lamentam o passar dos anos, eu bendigo. Cícero em um dos seus tratados descreve uma réplica de Catão à Cipião onde ele diz: “Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia julgar ruins as necessidades da natureza. E a velhice, seguramente, faz parte delas! Todos os homens desejam alcançá-la, mas, ao ficarem velhos, se lamentam. Eis aí a inconseqüência da estupidez!...”. Que eu bendiga pelo menos mais 47 vezes.
Uma sociedade é constituída das suas memórias. Um ser é constituído pelas memórias passadas pelos antepassados agregando as próprias experiências.
Discorro agora sobre a formação da memória, do seu conceito e do "meu envelhecer".
Compartilho uma das experiências mais marcantes que presenciei em 2009 que foi a interpretação do poema “The Lark” de Laurie Anderson, baseado no texto “Pássaros” de Aristóteles, onde ela mitifica o surgimento da memória.
The Lark – Laurie Anderson
Before the world began, there was just sky.
No earth, no land.
Only air and birds everywhere.
Billions and billions of birds.
And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem
because there was no place to put the body
because there was no earth.
And it went on for five or six days and
they were all trying to think of what to do with the body.
And finally the lark had a solution:
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before this no one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles.
Constantly flying in huge circles.
A Cotovia Antes do começo do mundo, havia apenas o céu. Nenhuma terra, nenhum território. Apenas ar e pássaros em todo lugar. Bilhões e bilhões de pássaros. E um desses pássaros era uma cotovia e um dia seu pai morreu. E isto era realmente um grande problema porque não havia um lugar para colocar o corpo porque não havia nenhuma terra. E foi no quinto ou sexto dias e eles estavam procurando achar o que fazer com o corpo E finalmente a Cotovia teve a solução: Ela decidiu enterrar seu pai na parte de trás de sua cabeça. E este foi o inicio da memória. Porque antes disto ninguém podia se lembrar de nenhuma coisa. Eles só estavam constantemente voando em círculos. Constantemente voando em círculos enormes. _________________
Mapas da Imaginação e da Memória: A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto - eis a invenção. Ana Hatherly - 'A Cidade das Palavras'
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Don't think about me If you think that I want friends If you think that I like candies
You are wrong You are wrong
If you think that I need money If you think that I hate Monday
You are wrong You are wrong
I just don’t care I just don’t care
I only want to live in peace to live sane to live in grace
I only want to grow old with wisdom to grow old slowly to grow old with freedom
To forget that I’m human, that I’m human.
Don’t think about me. Don’t think about me.
Não pense sobre mim
Se você pensa que eu quero amigos Se você pensa que eu gosto de doces
Você está errado Você está errado
Se você pensa que eu preciso de dinheiro Se você pensa eu detesto segundas-feiras
Você está errado Você está errado
Eu apenas não me importo Eu apenas não me importo
Eu apenas quero viver em paz viver racionalmente viver com elegância
Eu apenas quero envelhecer com sabedoria envelhecer devagar envelhecer com liberdade
Filme totalmente simbólico O filme discute a natureza humana e a natureza da natureza. Prólogo: Começa com uma ária de Hendel (única musica do filme, tendo partes por toda obra) Lascia Ch'io Pianga - Deixa que eu choro (leia o texto a ouvindo). Referencia direta ao pedido que a mulher faz: Deixa que eu choro, deixa eu curtir a dor, elaborar o luto, que eu queime o que estou sentindo. O grito do feminino.
Lascia la spinacogli la rosa;
tu vai cercandoil tuo dolor.
Deixa o espinho Colhe a rosa;
tu vais buscando tua dor.
Durante um intenso ato de sexo uma criança desce do berço, caminha pela casa e flagra os pais. Olha para eles e percebe que a mãe o trai com o pai. Descobre que a mãe não lhe tem como o único afeto. Segue em frente até chegar em uma janela onde se encontram três bonecos representando os três pedintes. Salta da janela e está morta, então, a antiga relação entre ela e a mãe.
A metáfora trazida pelos três bonecos se apresenta no centro do poema de Yeats – The three Beggars - onde ele fala que as pessoas estão passando fome – “por mais que se tente não há de onde tirar o alimento – tudo o que está ao redor é lixo”. O poema é a historia do rei que vai ao encontro dos três pedintes e ao longo do poema não se sabe mais quem é, na realidade, o necessitado, se é o rei ou se são os mendigos. É a velha dialética onde o criado diz ao senhor... “não sei se senhor tem medo de mim ou se eu tenho medo do senhor”. O homem tem que tirar seu sustento da natureza, para isso a sangra. A natureza tem que sobreviver, para isso o agride.
A mãe atingida pela pior tragédia na nossa cultura, que é a perda de um filho, elabora o seu luto – Dor advinda da noção de maternidade, uma noção construída pela sociedade à muito pouco tempo.
O marido um psiquiatra, indo contra a ética profissional, passa a assisti-la e a analisar. Ambos vão para uma cabana em um espaço chamado por eles de Éden- Éden esse com presença das folhas do carvalho não da figueira -, lugar onde ela havia tentado desenvolver, tendo o filho ao seu lado, seu trabalho de tese sobre perseguição às mulheres. ***Ginecidio – assassinato de mulheres*** Ao adentrar no Éden ele a obriga a deitar no mato, a interagir com a natureza. A natureza da mulher e a natureza da natureza são conectadas.
A natureza é representada por um carvalho.
Durante o filme o carvalho simboliza a luta dos elementos da natureza pela sobrevivência. O carvalho é uma arvore isolada, expande as suas raízes ao longo de uma grande área para retirar energia de outros carvalhos que por ali tentem se desenvolver. O carvalho que joga bolotas a todo o momento O carvalho – no filme - contamina a mão do homem O carvalho se defende, anula o seu redor para ser dominador do espaço O carvalho quase que eterniza sua existência, Representação da maldade da natureza. A natureza não é mais o Éden original.
“A natureza é a igreja de Satã” – brada a personagem mais tarde. Não devemos subestimar o Éden.
Já a natureza humana é retratada com olhares Hobbesianos. Enquanto você está bem alimentado, aquecido, descansado, sem dor você é o que chamamos de bom. Basta tirar uma dessas coisas que teremos experiências similares aos chamados “sobreviventes dos Andes”. Somos pessoas tendentes ao egoísmo.
O poema volta em forma de tríades.
Aparece nova simbologia, agora animais. Três símbolos dos mais tradicionais que existem: A corsa – feminino, fecundidade – a corsa grávida perdendo o seu feto, dividida entre a floresta onde ela anda e a sua gravidez. A raposa – astucia (no cap. 18 do Príncipe a raposa é um modelo). O corvo – faz a travessia.
É exposto que a pesquisa da mulher, no decorrer do seu convívio com a natureza no Éden, tomou um novo rumo em que teoriza que a matança de milhares de mulheres na história é decorrente de atos de defesa da sociedade defronte a natureza da mulher – que é má. A mulher é má e o que a Europa fez ao matar milhares de mulheres nada mais foi se defender da maldade feminina. Assim como a raposa é astuta, a mulher o é no choro: “Atrás de uma lágrima há uma atriz”. “O choro da mulher é uma pausa para elaborar uma estratégia melhor”. **Sociedade é misoginia ou vítima da mulher? **
O homem é perseguido, castrado e preso a uma pedra. O homem está castrado e impedido de fugir, Posse absoluta.
O homem se conscientiza que para sobreviver tem que se libertar. O homem ferido para o sempre se vê na obrigação de eliminar a moléstia. O homem ferido para o sempre, no Éden, elimina a fêmea.
A mulher antes temerosa à Natureza, ao final conspira com ela. O homem começa a temer a Natureza quando passa a entender a própria natureza da esposa.
A última cena da obra mostra o homem em comunhão tanto com a natureza tanto com imagens figurativas representando o feminino que passam a cercá-lo no Éden.
A natureza das coisas são soberanas O mundo não é o caos. O mundo não é o paraíso. O mundo apenas é, com o bem e o mal.
Uma visão pessoal da obra – uma visão minha, não o que o diretor quis dizer:
Alem dessa visáo da natureza que nos cerca (a humana e a da natureza), talvez minhas questões levaram-me a enxergar algo mais onde aponta essa nova configuração do feminino.
Dois fatos, um onde ela narra ao marido, que se mostra ignorante à rotina do filho, os novos hábitos noturnos da criança e outro de ela ter levado a criança para o Éden durante o período de desenvolvimento da tese, enquanto, possivelmente ele continuou a sua rotina sem ter que se preocupar com o filho apontam para o homem milenar com a paternidade definida em prover e proteger.
Ela, mulher moderna, interrompe a maternidade para gozar, para usufruir do seu direito de ser feliz. Abandona o filho para retornar à condição de una. Sacrifica a maternidade em troca do gozo.
Faço-me aqui reconhecer.
Dou-me, e só a mim, o direito de faze-lo, pois – citando Frida Kahlo – “sou o assunto que conheço melhor”.
Indigno é aquele que desfaze da sua capacidade inata e nada transforma, que sonha voltar para o paraíso onde “tem uma vivencia isenta de conflitos... as contradições superadas e (onde) o rebanho humano poderia viver a paz, o seu sábado dos sábados.” (Will Durant)
Reconheço-me, então, um ser imperfeito – inacabado – e me aproprio do pensamento de Nietzsche: “Aquilo que eu não sou é, para mim, Deus e virtude”.